Boêmios no divã

“De repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Precisamos de uma casa, comida, uma simples mulher, que mais? Que se possa andar limpo e não ter fome, nem sede, nem frio. Mas por que, para que, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas?"

Nome: Rubão
Local: Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil

Errante, publicitário, jornalista.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Terçafeiramente

Anteontem teve uma marchinha de carnaval - "Bom-dia" - que ganhou o concurso do Fantástico. O refrão era assim:
"Se o Conde D´Eu
O rei de Bagdá
Os negros do Sudão
Por que não posso dar?"

Ontem tive um devaneio. Sonhei que casei e fui para a França, entre outros destinos europeus.

Hoje tive um desatino. Preparei um x-tudo e já saiu da chapa a primeira estrofe:

"O sol raiou
No Vale do Loire
Lua-de-mé na França
Beber até soir"

Menos, Rubens. Menos.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Tarde demais

Ao fim de cada torneio, prometo que vou deixar pra lá, reduzir o interesse, coisital.

Mas a Copa do Mundo se aproxima a cada 15 minutos e agora é tarde: já virei novamente um aficionado.

* * *

Navegando pelo perfil das seleções no portal da Globoesporte. No da anfitriã, berrava a seguinte manchete:

"Saiu Joel, entrou Parreira. Mas problema continua: falta de gol"

Ou seja: na falta de gols, os cartolas sul-africanos resolveram chamar um especialista.


"O gol é apenas um detalhe"


É, como diria o Ancelmo Gois. Faz sentido.

Rivais


Em uma cena de Caos Calmo, dois executivos - um italiano e um francês - almoçam em uma praça de Roma. O francês elogia a comida, mas o dono do restaurante - que estava mais para uma pequena lanchonete, no máximo uma cantina modesta - recebe do seu compatriota uma admoestação (naquele comedimento, aquela fleuma tão própria dos italianos): o brócolis não precisava de queijo. Havia ingredientes demais no prato.

O dono do restaurante nem parece lhe dar bola. Num rompante, dispara sobre o francês:
- Já experimentou algo tão saboroso assim em Paris? Anh? Anh?

Mais à noite, degustando o (bem-escrito) primeiro volume de História da Vida Privada - do Império Romano ao ano 1000 -, organizado por historiadores franceses, mais de um momento tive a impressão de identificar uma ou outra maldadezinha, como "...os romanos, povo versado em trapaças...", ainda que, no contexto em que aparecem, façam sentido e sigam em coerência com o ensaio.

Cinema, gastronomia, pintura, literatura, música, escultura, futebol... França e Itália têm uma riqueza cultural tão grande que acho impossível, até pela proximidade, que não haja uma rivalidade natural. O maior rival do irmão é o próprio irmão.

Aliás, pesquisando sobre a palavra rival, parece-me que vem do latim riva (riacho, rio, beira). E conta-se que o significado do termo se origina de duas vilas, nas cercanias de Roma, que comungavam o mesmo riacho, mas em margens opostas.

Pensa. Se hoje o vizinho do apê de cima já é o inferno, imagina o que deveria ter sido você lá, numa das vilas rivais daqueles tempos primevos.

Prefiro a Argentina.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Toca Jorge

"De fogo" caiu em desuso, mas costuma precisamente ser este o estado em que as pessoas se sentem mais à vontade para pedir uma música ao cantor de um bar à beira da praia.

Sempre intrépido nestes quesitos, tratei logo de fazer minha parte. Depois de ter tomado umas, tomei a dianteira e, para pentelhar a Meg, fui segredar ao ouvido do músico uma canção do Roberto Carlos.

Fui seguido de Meg, que pediu uma do Lulu Santos. E nisso foi a noite; nós cantamos selvagemente, levantamos da mesa para dançar - mais uma vez os únicos a fazerem isso. O mico de sempre.

Eu reparava que o Dani e a Bala - o casal que nos acompanhava-, por timidez ou alguma outra razão, nunca pedia uma música. Cantavam com a gente, numa boa, mas pedir música, nada.

E isso foi um dia, também outro, da tarde à noite, a coisa indo sempre nessa toada.

Um dia, fui embora mais cedo. Meg durou um tempinho a mais com as meninas, mas logo também deixou o boteco. Restaram à mesa Bala e Dani.

Não sei se foi pelo fato de estarem ali sozinhos ou se a cervejada já se fazia sentir efeito, mas parece então que o Dani, até então com o olhar parado de bêbado, de súbito se empertigou na cadeira. Havia tomado uma decisão. Levantou o braço e bradou para o cantor:

- Toca JORGE AMADO!

A Bala disse que Jorge Amado é escritor, mas o Dani não quis nem saber. Ficou ofendido porque o cara não quis tocar Jorge Amado, até porque as pessoas ouvem demais as músicas dele, é brega mas é bom, todo mundo conhece a música de Jorge Amado.

Foram divergindo até chegar em casa, quando ele pergunta para Meg quem é Jorge Amado e ela diz "escritor baiano" e Shazam!, toda a lucidez da memória retorna à mente em um segundo.

Desconfio que daqui pra frente ele vai continuar é apenas cantando na mesa com a gente, tamborilando os dedos e olhe lá.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Foi horrível

Sol, brisa e cerveja gelada o tempo todo.

Peroazinhos, douradinhos, churrasquinhos e um marzão.

A presença da muié amada, crianças e gente querida.

Isso eu não desejo para o pior inimigo. Nem!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Então fica assim

Vocês aí trabalhando.

Tomando esse solão.

Eu vou ali pescar um marlin.

E voltar da praia negão.

(Aluguei por temporada, glup!; espero não ter levado golpe)

* * *

Registro seinfeldiano de última hora: já pensou você que coisa é a sunga? Talvez seja a única peça de vestuário que você, homem que tem bilau, tenha secretamente um pequena hesitação (receio? asco? repulsa?) em experimentar, porque provavelmente aquela peça na gôndola que você escolheu deve ter freqüentado há pouco o saco de outro sujeito. Já imaginou? Você pegauma sunga, leva-a ao provador e, na hora de vestir, descobre agarrado lá um pentelho alheio que a vendedora não viu ou ficou com nojo de tirar. Bom, quem nasce em Teófilo Otoni certamente passa por cima dessas frescuras todas, e não só entende plausivelmente a reticência como a encara com boa dose de indulgência. Afinal - ora, bolas! -, nós, amigos, a gente não ficaria usando a cueca uns dos outros numa boa. Ficaria?

Deve ser por isso, entre outros motivos, que tantos preferem a segurança desajeitada de uma bermuda aos possíveis constrangimentos da sunga.

Seja como for, eu já comprei uma pra chamar de minha.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Morte súbita

Me contam que um parceiro da agência - diretor de uma produtora de vídeo - faleceu nesta manhã.

Era um cara jovem, legal, bacana - bom de mexer. Já havíamos trabalhado juntos no ano passado. Hoje, ele tinha reunião aqui com o chefe, para a conclusão de um outro projeto que está em andamento.

Disseram que estava numa estradinha que conheço bem, a de Casa Branca, vilarejo bem aprazível a 25 Km de BH.

A estradinha requer cuidados; tem trechos sinuosos, à beira de desfiladeiros. Mas, até agora, estamos sem detalhes do que aconteceu; se foi abalroado, se saiu da estrada, etc.

A mulher, que estava com ele, quebrou uma perna, mas sobreviveu.

Que pena. Que triste.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Rapazes, aderi

Eu fazia uma gracinha e nada. Falava uma bobagenzinha, nada.

Eis aí um doutor que parecia completamente desprovido de senso de humor.

Pior é que eu insistia. Perguntado se fazia uso constante de algum remédio, retruquei: "- Vale cerveja?". Nem um sorriso, nem um esgar. Nada.

Quando me vi na posição fatal, de ladinho, enquanto ele me explicava como seriam os procedimentos - um exame constituído de três fases: inspeção visual, análise digital em profundidade e retosigmoscopia -, eu tentei uma última e desesperada cartada, talvez pra quebrar o gelo daquele momento assim tão íntimo de nós dois:

- O instante é solene demais ou cabe uma piada? Sabe o que meu pai me disse quando fez o exame pela primeira vez? Que havia perdido a virgindade de cu.

Ajeitando as luvas nos dedos, o homem continuava impassível.

- Aí eu disse pra ele que vinha aqui hoje e perguntei se ainda havia vaga para entrar pro clube.

Ele se permitiu mexer a boca, mas de um jeito estranho, nada que lembrasse um sorriso. Então falou:

- Vamos começar.

Posso afirmar a vocês que passei - me orgulho em dizer, por que não, com louvor - pela inspeção visual e pelo toque. Mas a tal retosigmoscopia... caramba. Parece que o sujeito enfiou uma lanterna no meu toba - uma daquelas lanternas metálicas de camelô, era só o que eu pensava na hora, compriiiiiida toda vida. E mexia de lá pra cá, de cá pra lá, pra cima e pra baixo. E, nesse mexe-mexe, vergonhoso confessar mas é verdade, soltei um ou dois gases.

Muito bem. Acabado "o procedimento', o doutor contou que eu tinha hemorróidas internas muito pequenininhas, que minha próstata estava ótima, que estava tudo bem e que nem iria me prescrever nada. Disse que eu podia já me assentar, se quisesse. Foi o que fiz. Então, dirigiu-se a mim, todo satisfeito e, pela primeira vez, sorrindo:

- Excelente! E aí? Está tudo bem? Está sentindo alguma coisa? Alguma coisa nova? Alguma sensação diferente?

O diabo que esse homem não tinha senso de humor.

* * *

Enfim. Era este o depoimento que eu queria dar, fica aí minha contribuição e solidariedade para os anais da proctologia.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Reticência

Um potencial comprador quer adquirir a honorável Mansão do Nova Granada. O negócio parece razoável e o sujeito, determinado...

Titubeio.

Voltar para casa de mamãe? Nóóóó...

Entrar para o movimento dos sem-casa.

Casar e entrar pro movimento dos dentro-de-casa.

* * *
Lição de Anatomia do Dr. Queiroz.

Voltando do hospital, descobri que o osso do braço que saiu do lugar se chama Ulna.

Ulna. Pense nisso por um segundo. Repita comigo, mental e lentamente:

Uuuuulna.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Gratidão


Hoje cedo Meg se levantou e eu aproveitei para fazer o mesmo assim que ela saiu. Fui ao banheiro e voltei para cama. Peguei um exemplar daquela coletânea da Disney lançada pela Abril, com as histórias do Carl Barks, o Homem dos Patos.

A segunda historinha que li me fez engasgar de tanto rir.

Pena, que a gente não começasse cada dia assim, às gargalhadas, antes das 7 da manhã.

Pensando nas histórias do homem, seu humor, seu sarcasmo, a humanidade e toda a sua carga de sentimentos que confere aos patos - amor, ódio, ciúme, cobiça, vaidade, medo - e, me valendo de sua biografia, não vejo como é possível não admirá-lo.

Barks foi possivelmente minha primeira leitura, aos cinco. Embora não soubesse seu nome, suas histórias eram reconhecíveis pelo traço e enredo - havia um abismo de qualidade entre elas e as historinhas de outros autores. Via de regra, as aventuras de Barks abriam e/ou fechavam as edições de Disney Especial - uma revista grossa, coletânea em torno de uma idéia qualquer, como "Os piratas", "Os vizinhos", "Os inventores".

O homem era genial, e quem critica seus quadrinhos com aquele papo de "propaganda do império capitalista" para meninos não sabe do que está falando ou nunca leu uma historinha de Natal de Barks, qualquer que seja.

Além de conter parábolas morais, as histórias de Barks despertaram em seus leitores mirins o espírito de aventura, o apetite por História, a curiosidade científica - sempre ambientando suas narrativas em lugares distantes, envolvendo mitos, misturando arqueologia, etc. Me lembro, por exemplo, que aos seis, sete eu já tinha conhecimento, ainda que rudimentar, sobre Jasão e os Argonautas, Circe, Medéia, Minotauro, Aladim, Incas, Fliegende Hollander, a Pedra Filosofal, a Fonte da Juventude, Cortez, as Minas do Rei Salomão, a Rainha de Sabá, Odin, Thor, Valhalla e Valquírias, Machu Picchu, Índia, Indonésia, Nepal, Caribe, Klondike, Yukon, Alaska, África, Vênus, Júpiter, Saturno, Plutão... por aí vai.

Nós, crianças, devemos muito ao velho Carl.




quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Películas Políticas

Só pra registrar.

Com tantos filmes sobre: períodos de ditadura, comunismo, terrorismo, revolução e regimes militares - principalmente estes da nova safra do cinema alemão, quase todos muito bons - arriscaria dizer que isto poderia ser o sinal de um gênero em formação.

Qualquer dia algum maluco dono de locadora inova e tasca lá na prateleira "Político", provavelmente espremido entre os de "Guerra" e "Western".

Sei lá, mas quando Gunga Din ou As Pontes do Rio Kway foram exibidos, as pessoas como eu e você nem deveriam categorizá-los assim, tipo, é um filme de "Guerra", como se fala " é um romance", "é policial" ou "terror" . Provavelmente deveria ser visto apenas como mais um drama, só que bélico. Até porque o videocassete doméstico e o aluguel de filmes ainda levaria anos para ser inventado, para exigir tentativas mais claras de organização e classificação. Aliás, se o vídeocassete é o pai das locadoras, o drama é mãe de todos os gêneros.

Voltando aos alemões e seus canhões. Sem querer fazer esforço, vou me lembrar aqui de Edukators, Adeus Lenin, A vida dos Outros, A Onda, (O Falsário também é germânico?), o Grupo Baader Meinhof, etc, etc. Tudo recente. E, entre as produções americanas mais notórias e fresquinhas, aquela que oscarizou a Kate Winslet no ano passado (vá você ao Google, preguiçoso é você, eu sou é desmemoriado).

E pra encerrar essa falta do que fazer mas não do que falar, uma palavrinha do Ambrose Bierce:

Revolução, s.f. Em política, uma mudança abrupta na forma de desgoverno.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Para Meg

Quer se casar comigo?

Não comerei da alface a verde pétala

Mentira.

Pra esvaziar as lateralidades abdominais recém-adquiridas (e também, por que não, dar uma força pra Doutora), embarquei com ela numa dieta de tiro curto.

Proteína à la vontê. De carboidrato e frutas, nada. Vegetais, pode-se, praticamente sem restrições. Legumes, poucos. Doces, nem pensar.

Nessa situação, eu teria que avacalhar um poeminha do Vinicius que gosto muito:


Comerei, sim, da alface a verde pétala
E da cenoura evitarei as hóstias desbotadas
Provarei as pastagens que servem às manadas
E a quem maior aprouver fazer dieta.

Cajus hei de só olhar, mangas-espadas
Talvez calóricas demais para o cronista.
Pães e massas idem, estão fora da lista
Resignarei-me ao cromo das saladas.

Ora, não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; mas aquiesci
à tal dieta: me passem um bife ou dois

E um ovo, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei feliz, do coração
De ter vivido sem emagrecer em vão.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Dor de cotovelo

Natal e reveillon foram muito bons.

Só lastimo, no entanto, que sogra e sogro tenham passado dos limites.

Um perigo, essa terrível tentativa de desvirtuar, desnortear a retidão de um homem tão austero, tão moderado, tão regrado - um asceta, praticamente - nas insinuantes veredas do bem-bom, das cervejas e queijos e acepipes e pratos deliciosos todos os dias, todas as noites.

A crueldade chegava ao requinte de, após um almoço de enrubescer Babetes, com miliduas opções de carnes e quetais, e depois de frutas de várias espécies e sobremesas de diversos tipos e sabores, me perguntarem com espantosa tranquilidade:

- Aceita um pão com manteiga? E um ovinho frito?

Isso não se faz. Minha pança está deste tamanho.

* * *

A verdade mesmo é que se você estiver mal intencionado, tudo o que precisa fazer é contar a verdade.

Ninguém acredita.

No dia 26, ganhei de Natal uma luxação no cotovelo. A lesão se deu quando brincava com as meninas, Doc e o cunhado de disputar corrida num gramado da UFV. Descalço, escorreguei e meu cotovelo foi de encontro a uma árvore. Fui de maca pro hospital, onde reduziram. Doeu, porém não mais do que o orgulho ferido.

Pois aí é que está. Aqui no trabalho, relato o caso tal como aconteceu e ninguém, do boy aos chefes, me dá crédito, apenas olhares de escárnio e desdém: "Bebeste quantas?", "Tava jogando bola bêbado", "Machucou o cutuvelo foi na virada, né Rubão?".

Triste, triste.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Inté

Dizem que, no Brasil, ironia não se escreve, explica-se. Ainda assim, isso não apaga a constatação constrangedora de eu estar escrevendo muita porcaria. Além do suportável, certamente.

Falar nisso, suportamos 2009 e suas crises com denodo e paciência. Ponto pra todos.

E agora? Agora, um ano a mais, um ano a menos, lá vamos nós, privilegiados, marchar rumo aos banquetes.

Vou ali engordar para começar o Ano Novo culpado. Boas festas para você também.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Nada com nada

Natal, reveillon chegando. E resfriado, numa hora dessas? Pô, parei.

* * *

Agora, direto chega alguém e diz: - Te vi tal hora, tal lugar. Nem me surpreendo mais. Curioso é que, além deu não ver ninguém, em nenhuma das circunstâncias o fulano foi lá oferecer um aperto de mão, um abraço, buzinar, dar um grito.

Hmmmm, será sonseira minha ou essa turma me vê e se esconde? Ando tão cacete a ponto de ser evitado?

Num pode, num admito. Das duas, uma: ou eu de fato não enxergo essa gentalha ou é essa gentalha que não se enxerga.

* * *

Outro dia, tinha falado por telefone com um corretor, ele ia nos mostrar um imóvel. Como Meg e eu chegamos mais cedo, fomos dar a volta no quarteirão, reparar a vizinhança. Detalhe: a gente tava adiantado ao horário, fora do local combinado, andando à paisana pela calçada como qualquer cidadão.

Aí, na dobra da esquina, sujeito atravessa a rua em nossa direção e grita: - Rubens!

Parei, intrigado: - É você o corretor? (havia esquecido seu nome). O sujeito confirmou e comentei com ele que eu deveria ter mesmo cara de mim, porque era um mistério como ele havia detectado um Rubens em meio aos transeuntes de forma tão bem sucedida. Quase lhe dei parabéns.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Ti-au


Laka, a Akita das minhas irmãs, se foi.

É o que me conta mãe, por telefone.

Entrou em coma e não pôde resistir mais.

Tadinha, descansou. A bichinha já vivia doente há anos, num estado de penúria que dava dó.

Mãe revela ainda que as manas, sensíveis que são, estão em prantos.

Compreendo o apego. Tive um vira-lata chamado Ludo. Era apaixonado pelo cachorro. Então ele ficou doente e eu adoeci junto. Durante dois dias, não fui à aula, não comi, não dormi, fiz nada. Só chorava. A situação era irremediável, porém ninguém foi forte o bastante para dizer a verdade a um menino de dez anos. Inventaram uma conversa fiada para me tapear e deram um jeito de tirar o bicho lá de casa, me apaziguando com o papo de que Ludo estava sendo tratado e se recuperando bem lá na roça.

Digo à mãe que foi melhor assim. Adultas, Ju e Nanda se recuperam. O sofrimento da Laka, que era de arrancar suspiro, acabou. E sorrio ao telefone: agora é só arranjar outro cachorro.

Exacerbada, ela própria sentida, rebate:

- Nada!, lá em casa nunca mais entra cachorro nenhum. Arrependimento!

- Foi você mesma quem comprou.

- Porque na época sua irmã tava em depressão. Mas foi a pior coisa que eu fiz.

Uma pena. Mãe não consegue compreender que se fosse um pouco além da contrição presente, veria os inúmeros momentos de alegria compartilhada – e, por que não, dor e preocupação também - que a presença da Laka proporcionou em todos esses anos. Que foi ela a responsável direta por oferecer às manas a companhia e o apoio emocional que só um cachorro pode e sabe dar. E, acima de tudo, veria que ter colocado um cão em nossa família – mesmo contra seus princípios domésticos! – não foi a pior; foi a melhor coisa que ela fez.

Viver é isso, mãe.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Ação e reação

Eram três riscos paralelos por toda a lateral; de nascente no bagageiro, serpenteando pelas portas, até a foz sobre o capô - como se o próprio Wolverine tivesse alguma coisa muito pessoal contra os Clios hatch pretos.

Cara, tem sujeito muito, muito espírito de porco.

* * *

Se você flagrasse alguém deliberadamente depredando seu veículo, o que imagina que faria?

Dependendo do tamanho do animal, daria um pau? Se fosse um moleque, uns bons tabefes?

A violência seria admissível? Pouco sensata, porém lícita? Nada que consertasse os danos provocados ao bem, mas, no calor dos acontecimentos, infligir um pouco de dor ao responsável daria uma sensação de reconforto?

Se, num caso desses, fosse possível antecipar que os punhos seriam as únicas armas empregadas, acho que os fins justificariam os meios e valeria correr o risco: bora partir pro bacubufo no caterefofo pra tirar a história a limpo.

Mas, como se sabe, não existe código de ética nas ruas.

C.Q.D.


PS. Caralho, foi o carro inteiro.