segunda-feira, 26 de março de 2012

Le jour de gloire est arrive

Mes ami,

Vamo ali e já vortemo. Beijos,

A bientôt,

r

quarta-feira, 21 de março de 2012

Possessão

Segunda ou terceira vez que sonho que estava sendo possuído. Brrr! É uma sensação terrível. Real e assustador.

Hoje, no ápice do sonho, tentando encontrar um meio de me salvar da dominação completa e irremediável por um espírito maligno, lancei-me desesperado à busca um mantra ou prece de proteção.

O detalhe é que, no sonho, em vez de bater o joelho no chão e rezar um Pai Nosso ou a Ave Maria, comecei a cantar Chico Buarque.

Por favor, não me excomungue. Pois a fé de cada um não é conforme os ídolos e deuses que venera?

Enfim. Pai, afasta de mim este cálice!


PS: encaro o assunto científica e agnosticamente.


Operação França II


Gente, gente. Segurem a onda docês aí que nós tamo chegando.

* * *

Em Paris, vamos ficar no 13º distrito, Gobelins, a algumas quadras da barulhenta Place d´Italie. Não figura como destino mais procurado pelos turistas, nem é tão próximo às atrações mais manjadas - o que permitiria a você alcançá-las num passeio a pé-, mas, por outro lado, está longe de ser um lugar sem atrativos.


Lá é o principal reduto asiático de Paris, com restaurantes tailandeses, japoneses e chineses (com variações, segundo li, cozinha chinesa típica do Cantão, do Centrão e do Cantinho, sei lá). No entanto, não é exatamente por ali que nós hospedaremos.

Cercado de prédios mais modernos, a salvo porém da urbanização e frenesi automobilístico parisiense, ergue-se no coração do 13eme o Butte Aux Caille, uma espécie de petit village com casas antigas e jardins, pequenos edifícios, muros decorados com street art, ruas e vielas calçadas de pedra. Uma zona boêmia, como dizem os gauleses, charmante et pittoresque.
Salvo engano, pronuncia-se algo como "Butô-cái". Com biquinho.

Butte, para nós que num falemo francé, means colina

Nosso mundinho por três semanas


Ali ficaremos em um istudiô na rua que tem o mesmo nome do bairro. Dizem que o quartier é muito frequentado por universitários. Por perto, entre outras coisas, há vários restaurantes e bistrôs, como aquele localizado no número 5 da evocativa Rue chamada "Cinq Diamants", o basco Chez Gladines (se lá transmitir, adivinha onde vou querer assistir Barcelona x Milan pelas quartas de final da Champions League dia 28 de março?);

Pelo que vi dos pratos no link acima, vai dar vontade
de reservar um pra cada noite. Vai lá pucevê se dá pra evitar não voltar panhoca.


Piscinão de Ramos - versão Paris

Também nos arredores se encontram a primeira piscina pública da capital, e, bem do ladim da gente, uma pracinha em homenagem à Comuna de Paris - ó minha vocação revolucionária me chamando!

"Contre nous de la tyrannie..."

Pracinha em homenagem à Comuna de Paris; acho que nosso cafofo é logo ali, dobrando a esquina.


Sala, quarto e cozinha : tudo ao mesmo tempo agora

L´armoire = le lit! Bon Dieu!

terça-feira, 20 de março de 2012

Tem como não gostar desse cabra?


Só pra lembrar com alegria que - no dia em que Messi alcança o topo da artilharia na história do clube -  somos contemporâneos.

Pra quem gosta de futebol, nada é melhor do que vê-lo jogar.

O cara ainda vai estar lá, à frente do Garrincha, à frente do Maradona e atrás do negão.

Escreve aí.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Operação França

Entramos na semana derradeira para a viagem. Com muito menos pesquisa do que eu pessoalmente gostaria, em função de contratempos.

Por exemplo: comprei livros de idiomas para tartamudear em francês - mas não dará tempo de ler nem treinar.

Tampouco pude detalhar com a profundidade necessária os passeios, os programas com descontos, a logística de cada um.

Fazer o quê. "Joie!", me diz o Tradutor. Allez, Rubón e Meguí.






sexta-feira, 16 de março de 2012

A reinvenção em uma pequena parábola

Tudo leva a crer que três dimensões que cumprem uma interseção na minha vida - as esferas profissional, pessoal e social - chegaram, concomitantemente, a um ponto de inflexão.

Talvez seja preciso agora abandonar ideias que envelheceram. Aceitar que sonhos entram em obsolescência. Deixar que paradigmas se decomponham em paz.

A vida não tem sentido. Mas a busca por um sentido na vida é o que dá sentido à minha.

E o que dá sentido na vida da gente é o outro. Inevitavelmente.

Por isso, é confortável - não, confortável, não; é muito, muito mais que isso - poder contar com a esposa querida e familiares.

Porque, de resto, em cada uma daquelas esferas, sempre haverá de ter uma solidão tangente.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Loucos de Bilbao

O Barça não vai ter vida fácil com o Athletic de Bilbao, não.

O time do visionário - às vezes ridicularizado - Louco Bielsa parece estar com uma energia irresistível.

Vejemo.

Ei, Bielsa. Vem treinar o Galo.

Sobre a infrequência

Disse uma vez Eduardo Galeano:

Quando as palvras não são tão dignas quanto o silêncio, é melhor calar e esperar.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Pensando Educação, parte III

Olha que revolução a Finlândia está fazendo. Tudo diferente do que Brasil, EUA, Austrália e sei lá mais quem vê, (des)organiza e des(trata) a educação. Quase dá vontade de ser finlandês.




De maneira geral, o assunto educação me preocupa. Porque creio que nossa sociedade está criando uma geração de 140 caracteres sem se ocupar plenamente da formação de um único caráter.


segunda-feira, 12 de março de 2012

Tempos tristes

Ricardo Teixeira deixa a CBF. Tinha tudo para ser um dia histórico.

Mas, de repente, ninguém tem muito por que comemorar.


* * *

Bem, amigos da Rádio Boêmios no Divã. O o ouvinte que vos escreve dedica a próxima canção à sua esposa, Dra. Meg Marques.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Pirando

Pesquisa indica que o paulistano tá ficando doido, premido entre a depressão e a ansiedade.

Há anos prevejo que isso seria uma forte contingência a atingir o ser urbano. O cara comum, working or middle class, nos seus variados matizes.

BH vai pelo mesmo caminho.

Sujeito não pode beber, não pode fumar, não pode trepar. Não pode nada. Massacrado e reprimido de tudo quanto é lado e jeito. Perdido numa sociedade economicamente preconceituosa, altamente consumista, profundamente superficial. Com cada vez menos opções acessíveis de lazer e diversão. De cultura. De esporte. De arte. De fantasia.

Acham que isso daria o quê? Uma fábrica de maníacos ou uma usina de poetas?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Carná na terra de Chatô

João Pessoa é boa cidade; no Brasil, tem a costa mais oriental. Chove todo dia, mas tem sol, calor e sal. Bem quente e muito úmida - o que, no Nordeste, é normal. Não tem carnaval; suas festividades e blocos ocorrem nas vésperas, desde uma semana antes da data oficial. Deve ser pra evitar disputa com Recife, Olinda e Natal. Vixe! Rimou tudo e olhe que nem sou repentista e tal!

* * *

Adorei Rubacão, mistureba em que vai feijão verde, arroz, creme de leite (acho), queijo e um ingrediente protéico à escolha: ou camarão ou carne de sol/charque/lingüiça/frango. O nome do prato típico parece o pseudônimo de um mascote que eu teria, caso fosse um super-herói em um seriado ou desenho animado dos anos sessenta. "Ariel! Rubacão! Ukla! Vaaamos!"

Faltou achar um ensopadinho de lagosta pra sorver e um goiamum pra destrinchar. Estava em falta na maioria dos quiosques e restaurantes. Ficamos com a impressão de entressafra.

* * *

No comércio, mais de uma pessoa me perguntou se eu era nativo. Legal. Me deu ganas de engatar um sotaque arretado, pra ver se passava mesmo como um local sem ser desmascarado. Mas acabei deixando a ideia pra lá.

* * *

Passeio em Picãozinho, piscinas de água transparente longe da costa. Não vale a pena. Barcos em excesso, gente em demasia. A água acaba ficando turva e não tem espaço pra se locomover porque não se deve pisar nos corais. Só que a quantidade de turistas acaba estimulando a transgressão.

Praia do Sol, ao sul de JP. Vale conhecer, o esqueminha que eu gosto. Gente pouca, praia ampla, quiosquinho com mesa na areia para ficar ali. Só não pude tomar uma gelada porque dirigia.

Praia Bela, encontro mar e rio e mesas n'água. Os indefectíveis carros com porta-mala aberto e o som das profundezas do Hades. Dispenso.

Coqueirinho. Mesmo esquema descrito acima, mas é mais bonita, a meu ver. Mas é melhor que a Praia Bela, pois tem um restaurante onde dá pra se isolar um pouco do furdunço.

Ponta do Seixas. Interessante, do alto da falésia, ótima vista do mar. E o museu do Niemayer, ali do lado, vale ir só pra não dizer que tu não foi.

Centro histórico tá precisando de um capricho. Quase tudo em estado de abandono. E, quando fomos, na terça, tava tudo fechado. Pena.

* * *

Na ida, conexão no Rio, eis que surge uma mulher com um derriere inversamente proporcional ao tamanho do seu vestido. Era a tal Nicole Bahls - uma das celebundas mais em voga, atualmente.

* * *

Talvez o ponto máximo desse carnaval na Paraíba tenha sido Tambaba. Quem conhece a praia sabe o que significa.

Mas é matéria para outro post, talvez intitulado: "Sem frescura, sem disfarce, sem fantasia".

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Vô ali

Conhecer a Paraíba.

De carnaval para carnificina (socioeconômica): e a Grécia, hein?

Fico até pensando se não é a sacanagem dos caras: vamos matar o berço da cultura ocidental, primeiro.

Se não é deliberada, é de uma ironia crudelíssima.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Kolam


Em minhas fuçadas aleatórias, descobri o Kolam. Lesgal. Segundo li,


é um tipo de figura complexa e elaborada desenhada com pó-de-arroz oupó-de-pedra, na entrada das casas no Estado de Tamil Nadu, no sudeste da Índia. O desenho, feito com habilidade, graça e destreza, é feito pelas mulheres do vilarejo, emuma tradição cultural passada de mãe para filha desde o século III ou IV a.C.


Dia dos Namorados

Agora, recebo email de uma loja de departamentos para aproveitar as promoções de hoje, Valentine´s Day.

É uma sequência do Halloween, que já existe aqui. Rolo compressor natural ou subserviência cultural desmedida?

Aposto uma paçoquinha que ainda receberei este ano um email das Lojas Americanas sobre as pechinchas do Dia de Ação de Graças.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Se arrependimento matasse

Enfermeira catalogou os arrependimentos de quem esteve na iminência de bater o cartão de ponto. Leia, que você não vai se arrepender.



Da Folha.com

Veja os cinco maiores arrependimentos daqueles que estão para morrer

Uma enfermeira que aconselhou muitas pessoas em seus últimos dias de vida escreveu um livro com os cinco arrependimentos mais comuns das pessoas antes de morrer.

Bronnie Ware é um enfermeira que passou muitos anos trabalhando com cuidados paliativos, cuidando de pacientes em seus últimos três meses de vida. Em "The Top Five Regrets of the Dying" (Top Cinco Arrependimentos Daqueles que Estão Para Morrer", ela conta que os pacientes ganharam uma clareza de pensamento incrível no fim de suas vidas e que podemos aprender muito desta sabedoria.

"Quando questionados sobre desejos e arrependimentos, alguns temas comuns surgiam repetidamente", disse Bronnie ao jornal britânico "The Guardian".

Confira a lista e os comentários da enfermeira:

p>1. Eu gostaria de ter tido a coragem de viver a vida que eu quisesse, não a vida que os outros esperavam que eu vivesse

"Esse foi o arrependimento mais comum. Quando as pessoas percebem que a vida delas está quase no fim e olham para trás, é fácil ver quantos sonhos não foram realizados. A maioria das pessoas não realizou nem metade dos seus sonhos e têm de morrer sabendo que isso aconteceu por causa de decisões que tomaram, ou não tomaram. A saúde traz uma liberdade que poucos conseguem perceber, até que eles não a têm mais."

2. Eu gostaria de não ter trabalhado tanto

"Eu ouvi isso de todo paciente masculino que eu trabalhei. Eles sentiam falta de ter vivido mais a juventude dos filhos e a companhia de seus parceiros. As mulheres também falaram desse arrependimento, mas como a maioria era de uma geração mais antiga, muitas não tiveram uma carreira. Todos os homens com quem eu conversei se arrependeram de passar tanto tempo de suas vidas no ambiente de trabalho."

3. Eu queria ter tido a coragem de expressar meus sentimentos

"Muitas pessoas suprimiram seus sentimentos para ficar em paz com os outros. Como resultado, eles se acomodaram em uma existência medíocre e nunca se tornaram quem eles realmente eram capazes de ser. Muitos desenvolveram doenças relacionadas à amargura e ressentimento que eles carregavam."

4. Eu gostaria de ter ficado em contato com os meus amigos

"Frequentemente eles não percebiam as vantagens de ter velhos amigos até eles chegarem em suas últimas semanas de vida e não era sempre possível rastrear essas pessoas. Muitos ficaram tão envolvidos em suas próprias vidas que eles deixaram amizades de ouro se perderem ao longo dos anos. Tiveram muito arrependimentos profundos sobre não ter dedicado tempo e esforço às amizades. Todo mundo sente falta dos amigos quando está morrendo."

5. Eu gostaria de ter me permitido ser mais feliz

"Esse é um arrependimento surpreendentemente comum. Muitos só percebem isso no fim da vida que a felicidade é uma escolha. As pessoas ficam presas em antigos hábitos e padrões. O famoso 'conforto' com as coisas que são familiares O medo da mudança fez com que ele fingissem para os outros e para si mesmos que eles estavam contentes quando, no fundo, eles ansiavam por rir de verdade e aproveitar as coisas bobas em suas vidas de novo."






quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Sapere aude*



Parte II de um post aí pra trás, espremendo um cadim dilemas da educação , tutelato, etc. Ao ataque, pois!

Na Idade Média, a busca pela formação do homem livre era inspirada na clássica educação greco-romana, desvinculada de preocupações mundanas ou laborais.

Estruturou-se, nas primeiras universidades, nos mosteiros e catedrais – algo aí em torno do século IX – uma metodologia de ensino baseada em sete artes denominadas liberais. Dividiam-se em dois conjuntos: Trivium (encontro de três vias) e Quadrivium.

Trivium era composta por gramática, dialética e retórica. Reproduzindo aqui informação de segunda mão, de acordo com um teólogo da época, “a Gramática é o conhecimento de como falar sem cometer erro [gramática não no sentido como a entendemos hoje, mas sim no propósito de ensinar a clareza de expressão e comunicação de ideias]; a Dialética é a discussão perspicaz e solidamente argumentada por meio da qual o verdadeiro se separa do falso; e a Retórica é a disciplina da persuasão para toda e qualquer coisa apropriada e conveniente”. Trivial e elementar, meu caro. Aí está a base.

O sujeito podia parar por aqui e professar sacerdócio ou função administrativa eclesiástica. Ou, então, partir para o Quadrivium e continuar o edifício da sua instrução.

Aritmética, geometria, astronomia e música compunham o Quadrivium. O objetivo destas artes era a providência dos meios e dos métodos para o estudo da matéria e das coisas, pavimentando o caminho para seguir adiante. E, após o quê, era possível ao compadre se especializar em alguma das disciplinas superiores em voga na época: direito, medicina, teologia avançada.

Estas, como foi sublinhado, eram as artes liberais. A aprendizagem de profissões do tipo artesanal, como construção civil (ó a maçonariaí, gente!), se circunscreviam a corporações de ofícios, guildas e grêmios, creio.




Qual a boa ideia por trás da didática do Trivium, Quadrivium ?

Bom, o bichim tinha que aprender primeiro o domínio da linguagem – principal, mais básica ferramenta humana de interpretação e intermediação com o mundo – e as sutilezas, desdobramentos e complexidades decorrentes da sua aplicação, a partir do estudo de . Trocando em miúdos: primeiro, aprender a raciocinar. Depois, no Quadrivium, percorrem-se as disciplinas de cálculo, espaciais, “numéricas”, “de “quantidade”, que lhe permitiriam uma aplicação mais prática na sequência, útil ou imprescindível a determinados ofícios.

E o que toda essa salada tem a ver com o ensino de hoje?

O trecho que encontrei, num blog que me pareceu meio conservador, consegue traçar uma síntese lúcida e precisa da questão:

“O enigma da baixíssima eficiência do ensino, que não é fenômeno exclusivamente brasileiro, foi em parte resolvido na década de setenta pelo padre austríaco Ivan Illich (1926-2002), que propôs a sociedade sem escolas “tout court”. A tese de Illich, cujo mérito avulta na proporção direta do fracasso educacional geral, é que o sistema de ensino não tem por objetivo realmente educar, mas somente distribuir socialmente os indivíduos, por meio do ritual de certificados e diplomas. A escola formal, esta que Illich deseja suprimir, não é um meio de educação, mas um meio de “promoção” social, fato que as pessoas humildes revelam perceber quando insistem com o Joãozinho: estude, meu filho, estude...

Como se vê, vamos decifrando o mistério à medida que desprezamos a falsa equação entre ensino e educação. O sistema de ensino não produz educação, porque está ocupado demais em produzir documentos. Educação terá de ser buscada preferencialmente alhures, fora do sistema. É claro, sempre haverá um professor ou outro que, valendo-se da apatia do sistema, dará, por sua própria conta, aulas magistrais e educará de fato, contanto que seus alunos o desejem – o que, obviamente, nem sempre é o caso.

Temos aí uma espécie de lei geral com correlação inversa: a capacidade de educar alguém é inversamente proporcional à oficialidade do ato e diretamente proporcional à liberdade de adesão do educando. A educação prospera mais quando se a procura livremente. Este é o sentido da palavra “liberal” (de liber, livre) nas Sete Artes “liberais” da idade média, que eram ensinadas ao homem livre, por oposição às artes “iliberais”, ensinadas ao homem “preso”, controlado por guildas. Estas corporações de ofícios faziam grosseiramente o papel do sistema de ensino moderno, regulando privilégios econômicos e sociais.”

* * *

Olhando sem preconceito, a pedagogia escolástica medieval me parece bastante razoável. Aplicá-la ou adaptá-la aos dias de hoje são outros quinhentos. Se, de lá pra cá, até hoje se encontram desdobramentos e sistemas de ensino inspirados na escolástica, e em diferentes países, deve ser exatamente porque o encadeamento lógico da coisa toda cale lá dentro, faça sentido.

Ex-ducare: conduzir pra fora. Indo além, agora, seria preciso que fizéssemos a pergunta que pra mim é a raiz do problema: para que serve a educação, afinal?

A educação serve para o trabalho? Para a submissão, sublevação ou sublimação do espírito? É para aprender a pensar e descobrir coisas novas? É talvez para tudo isto junto e misturado, não podendo ser colocado da forma simplista como está aqui?

Fato é que, em praticamente qualquer talho que se tire da História, em qualquer época e qualquer lugar, sempre houve, por parte dos estratos sociais politicamente dominantes, a consciência de que era preciso restringir ao máximo a disseminação de conhecimento e circulação de ideias para que a massa de dominados não se insurgisse contra o status quo. As torneiras da educação, cultura, informação – todas as formas que a fluidez das ideias assume – são um poder estratégico que deve ser aberta ao povo aos pingos e aos poucos, de acordo com as circunstâncias. Assim foi, da pólis grega ao berço dos faraós, assim é, da Inglaterra recém-industrializada à mídia que hoje dissemina a idiotia e o consumismo embrulhadas em ilusões de arrivismo.

Então, hoje, para um filho, o que significaria uma educação de valor? Depende das premissas das quais partimos. Das inclinações pessoais do próprio indivíduo, acredito. E do subjetivo bom senso. Não tenho a resposta.

Mas veja aí o amigo minha inguinorança. Foi surpreendente reconhecer na fórmula medieval Trivium + Quadrivium um belo contraponto ao atual estado de coisas. E não adianta tentarmos nos enganar com maquiagens, converse você com qualquer professor do ensino público - e até do privado! – que você encontrará depoimentos aterrorizantes, apontando claramente para uma decadência generalizada - municipal, estadual, federal, global. Eis o perigo. Pois não defendem alguns que a formação deficiente dos cidadãos acarreta na formação de uma sociedade débil, corrompida e manipulável em todos os sentidos?

E vão combiná, né geeentem: não dá para levar muito a sério as estatísticas de educação propagandeadas pelos governos. Quase sempre são de natureza quantitativa – quantos entraram mais cedo na escola, quantos mais concluíram, quantos diminuíram a repetência – e quase nunca qualitativa – vide o grande contingente de analfabetos funcionais que deixam as instituições de ensino, grande parte sem saber ler, escrever ou fazer conta direito - e o mais grave - sem saber pensar.

Talvez, como disse Kant, tudo se resuma exatamente a isso, o dístico que poderia ostentar um lábaro do Iluminismo: *Ousar saber.

Ousar pensar.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Bonito, não?

É de Vinícius:


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados,
Para chorar e fazer chorar,
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses,
Mãos para colher o que foi dado,
Dedos para cavar a terra.